O trabalho científico com a Panthera onca envolve uma coleção de indícios, vestígios e sinais. A presença dela é documentada em pegadas, carcaças de animais abatidos, ou ainda pêlos e fezes. São elementos coletados pelos biólogos do Projeto Gadonça com a finalidade de descrever o comportamento e analisar os hábitos alimentares da onça-pintada na região do Pantanal de Miranda. Os itens coletados no campo são catalogados, numerados e arquivados no laboratório de campo do projeto. Amostras de fezes, por exemplo, colocadas em sacos plásticos com data, hora e local, passam por diversos estágios de tratamento, e o que sobra no final são pêlos de animais, identificados posteriormente com o uso do microscópio.
A coleção do projeto é composta de várias ossadas: veados, catetos, queixadas, capivaras, jacarés, vacas e outros. Além das informações sobre o quando e onde, os ossos dos animais falam também do como. As marcas da mordida da onça no crânio de uma anta (como a da foto) são acompanhadas de anotações sobre o tipo de terreno onde o animal foi encontrado, a localização em GPS, a distância para a estrada mais próxima e outros dados. Crânios de onças também fazem parte da coleção, provenientes de animais abatidos por caçadores em fazendas vizinhas.
Através do blog da San Francisco é possível encontrar informações sobre o projeto Gadonça e muitas imagens de onças feitas na fazenda:
http://blogpantanalfazendasanfrancisco.blogspot.com/
Onça de coleira, onça científica

O primeiro estudo científico da onça-pintada em ambiente selvagem com o uso da telemetria foi realizado no Pantanal. O projeto teve início no final da década de 1970, e foi coordenado pelo naturalista norte-americano George Schaller, da New York Zoological Society. Do ponto de vista científico, a onça se torna uma unidade produtora de dados a partir do momento em que recebe a coleira equipada com o rádio transmissor. Vagando pelos campos em busca de caça, as onças que usam essas coleiras produzem inscrições, coordenadas que vão se acumulando e são processadas em mapas. Os modelos mais modernos de transmissores são equipados com sistemas GPS, programados para armazenar dados de localização em intervalos regulares via satélite.
A partir dos dados obtidos em campo, os estudos ecológicos trabalham com ferramentas quantitativas como o PHVA (Population habitats and viability analysis), que consiste na compilação uma série de dados diferentes em sistemas computacionais, na elaboração de mapas complexos e nas previsões de quadros futuros para uma determinada espécie em termos estatísticos.
Para a biologia da conservação, a onça é um agente ecológico em diferentes sentidos. Em primeiro lugar, ela desempenha um papel como predador no topo da cadeia alimentar, com impacto nas populações de outros animais e no equilíbrio dos ecossistemas. É apontada também como uma espécie carismática ou espécie bandeira para a conservação ambiental, assim como para o ecoturismo na região do Pantanal: Um animal que mobiliza projetos de preservação e que atrai visitantes para a região. Um terceiro sentido provém da ecologia das paisagens: Laury Cullen (link abaixo) designa a onça-pintada como um detetive ecológico, isto é, um animal cuja presença é um indicador de biodiversidade. Neste caso, a descrição e o mapeamento das rotas usadas pela onça e sua permanência em fragmentos florestais podem indicar áreas que devem ser conservadas ou que funcionam como corredores de vida silvestre.
Referências:
http://www.ipe.org.br/pontal/detetives-ecologicos
SCHALLER, George B. 2007. A naturalist and other beasts: tales from a life in the field. San Francisco: Sierra Club Books.
Ataques de onça ao ser humano são muito raros no Brasil. O caso com o maior número de referências no total de 65 entrevistas que fiz na região do Pantanal do Miranda, em 2008, foi o de um funcionário do governo que trabalhava com prevenção da malária. O caso foi citado ao todo por 7 pessoas (ver vídeo), sem referência a nenhuma data.
A onça-pintada foi considerada como uma ameaça para o ser humano em um terço das entrevistas, e apontada como perigosa apenas em determinadas situações (particularmente quando está com filhote ou se alimentando) em metade delas.
Em junho de 2008, um pescador foi atacado e parcialmente devorado por uma onça-pintada em Cáceres (MT), enquanto acampava na beira do Rio São Lourenço. Este foi o primeiro caso registrado oficialmente no Brasil pelo CENAP (ICM-Bio) de um ataque de onça-pintada a um ser humano envolvendo predação. O acontecimento foi tema de matérias de jornal e televisão na época, e sua repercussão envolveu uma série de questionamentos sobre os limites das relações entre humanos e onças.
Uma discussão aprofundada sobre o caso e suas umplicações na conservação da onça pode ser encontrada no artigo de Peter Crawshaw (2008):
http://www.oeco.com.br/peter-crawshaw/19450-oncas-e-gente-ii-piores-encontros
As armadilhas fotográficas foram desenvolvidas nos EUA para o manejo de animais de caça e adaptadas pela biologia da conservação às pesquisas com mamíferos selvagens. Foram aplicadas no estudo de tigres na Índia por Karanth e Nichols (1998), associadas a modelos de captura e recaptura, e posteriormente usadas em estudos com a onça-pintada (Silver 2005; Da Silva 2011). O padrão gráfico das listras e pintas dessas espécies (a malha da onça, como dizem os pantaneiros) é como uma impressão digital dos animais, que permite aos pesquisadores identificá-los individualmente.
Armadilhas fotográficas podem ser usadas para determinar a distribuição (presença ou ausência) ou para estimar a abundância de uma espécie em determinada região. O equipamento é composto por sensores de movimento e câmeras automáticas comuns protegidas por caixas de plástico resistente (o uso de câmeras digitais só se difundiu no final da década de 2000, depois que a indústria resolveu a questão do delay para tornar a armadilha eficiente). Em estudo realizado no Pantanal, Soisalo & Cavalcanti (2006) compararam os resultados obtidos com coleiras GPS aos resultados obtidos com armadilhas fotográficas, questionando protocolos estabelecidos para estas a avaliação de abundância da onça-pintada a partir dessas últimas.
A armadilha da foto é da marca norte-americana Stealph Cam, usada pelo Projeto Onça Pantaneira em 2008 (ver post abaixo sobre o assunto)
Referências:
Da Silva, M. X. (2011). “Armadilhas Fotográficas”. Site Fotografia Científica. Disponível em http://www.fotocientifica.com/2011/08/fotografia-cientifica.html. Acesso em 12/09/2011.
Karanth, K.U. e Nichols, J.D. (1998) “Estimation of tiger densities in India using photographic captures and recaptures”. Ecology 79(8), 2852–2862.
Silver, S. C. (2005) Estimativa de Abundância de Onças-Pintadas Através do Uso de Armadilhas Fotográficas. Wildlife Conservation Society, NY.
Soisalo, M. K.; Cavalcanti, S. M. C. 2006. “Estimating the density of a jaguar population in the Brazilian Pantanal sing camera-traps and capture-recapture sampling in combination with GPS radio-telemetry”. Biological Conservation, 29 (4): 487-496.
No Pantanal, os rebanhos são contados em milhares de cabeças, assim como os hectares, sendo que existem muitas diferenças entre o gado produzido para fora e aquele que é abatido dentro das fazendas da região. A produção em grande escala, voltada para o consumo externo, contrasta com a pequena escala da produção que abastece as pequenas comunidades locais. As vacas abatidas para consumo interno são aquelas que não produzem mais bezerros (as chamadas matulas), e, enquanto as novilhas ficam na fazenda para procriar, os garrotes são enviados para o engorde e vendidos para abatedouros e açougues nas grandes cidades do Mato Grosso do Sul.
O gado de corte, que é o produto da fazenda, é tratado de uma forma completamente diferente de outros tipos de gado, como as vacas leiteiras ou os bois sinuelos (que acompanham os vaqueiros para reunir o rebanho). Enquanto nestes dois casos os animais recebem nomes próprios, o gado de corte é designado por números. O manejo intensivo dentro do mangueiro, os episódios de vacinação e contagem dos animais, são aspectos da relação produtiva do pantaneiro com o gado, momento nos quais o boi é reificado, tratado como objeto, como rebanho indiferenciado. A lida com os animais no campo, por outro lado, é atravessada pela diferenciação, pelos indivíduos excepcionais, brabos, que varam cerca, escapam do rebanho, pelos cavalos difíceis de domar, pelas reses reivindicadas pelas onças e pelas cobras.
De acordo com autores como Campos Filho (2002) e Mazza (1994), a pecuária tradicional pantaneira tende a aumentar a biodiversidade, na medida em que o gado se alimenta de pastagens nativas e mantém o campo aberto, beneficiando outras espécies da fauna regional. A ação do gado sobre o ambiente pantaneiro, além disso, mantém a paisagem tal qual ela é conhecida e valorizada pelos moradores locais; o gado limpa o campo e abre as trilhas por onde os vaqueiros circulam. As tradições locais, no entanto, se encontram ameaçadas por um processo de modernização e implementação de práticas homogeneizantes como o plantio da braquiária, capim exótico que aumenta a produtividade e substitui o capim nativo (Mazza 1994). Num movimento similar, o gado branco (zebuíno de origem indiana da raça Nelore) é apontado um invasor que toma o lugar do gado pantaneiro, sendo que a etno-espécie Tucura, de origem ibérica, encontra-se hoje seriamente ameaçada de extinção (Campos Filho 2002).
O gado branco surge, nesse sentido, como índice de processos que em toda parte substituem os antigos costumes e descaracterizam o ambiente, tornando-o homogêneo. O gado pantaneiro, por outro lado, revela agenciamentos heterogêneos: o boi sinuelo, o gado bagual (selvagem), o visonho (que nunca viu gente), são categorias que fazem parte da tradição pantaneira. O gado brancoremete à idéia do animal como recurso, matéria-prima para a empresa humana, enquanto o gado pantaneiro revela outros agenciamentos, aponta para um jogo complexo entre organismos e ambientes. O contraste evidencia uma distinção entre sistemas complexos e sistemas lineares de comportamento previsível e determinista.
Referências:
CAMPOS FILHO, Luiz Vicente da Silva. 2002. Tradição e ruptura. Cultura e Ambiente Pantaneiros. Cuiabá: Entrelinhas. MAZZA, Maria Cristina Medeiros; MAZZA, Carlos Alberto da Silva; SERENO, José Robson Bezerra; SANTOS, Sandra Aparecida; PELLEGRIN, Aiesca Oliveira. 1994. Etnobiologia e conservação do bovino pantaneiro. Corumbá: CPAP/ EMBRAPA.
Este vídeo foi filmado por cinegrafistas amadores que visitavam o pantanal, às margens de um rio em Cárceres (MT), julho de 2008. Existem algumas versões no youtube. Esta é a maior delas e tem sete (6:58) minutos de duração. A onça espreita as capivaras, imóvel, durante exatamente 4 minutos e cinqüenta e dois segundos. Nesse ponto, ela dá um salto abrupto e se lança em direção a um animal desgarrado do bando. Capivara e onça se jogam na água. Cinco segundos se passam entre o mergulho, a partir do qual predador e presa desapareceram, submersos, e o reaparecimento deles, aos 4:57 do vídeo. A onça nada, se afastando, e aos poucos é possível ver que ela arrasta consigo a capivara, mordendo-a firmemente no topo da cabeça. A onça espreita a capivara e os turistas espreitam a onça, ela captura sua presa e eles capturam a cena em fotografias e filmagens. O vídeo foi mencionado no debate em torno de acusações de que as onças dessa região estariam sendo cevadas, e por isso estariam se tornando perigosamente acostumadas à presença de turistas. Minha impressão, inclusive, é que o movimento dos barcos foi um fator de distração para as capivaras e que a onça tomou partido disso em sua emboscada.
A compilação, para este trabalho, de registros diversos, provenientes da pesquisa etnográfica, resultou num mapa, elaborado a partir de uma série de anotações, fotografias e listagens de referências, que foram fixadas num quadro. A construção deste mapa-colagem acompanhou o percurso da pesquisa de campo nos Pantanais do Miranda e do Abobral.
trinta e um queixadas (by flipskind)
jaguatirica.wmv (by flipskind)
O livro Tigrero! foi publicado em 1952 pela editora Ace Books, de Nova York. (A edição acima é de 1953). Na capa da edição de bolso, o gênero é descrito como “true adventure stories” e a ilustração remete ao faroeste e à cultura popular norte-americana. No livro, o caçador lituano Sasha Siemel narra sua busca por Joaquim Guató, um velho índio do Pantanal que enfrentava as onças-pintadas armado apenas com a zagaia, uma espécie de lança. A figura do zagaieiro é definida a partir de um contraste entre a imagem do índio solitário corrompido pela bebida e a imagem do perfeito caçador, dotado de “qualidades e instintos quase sobre humanos”. (1953: 16)
A luta entre o índio e a onça é apresentada por Siemel como um conflito “[d]o homem contra a natureza nos mais primitivos termos”, a essência da caçada. O embate é narrado nos mínimos detalhes, em contrastes sucessivos entre a figura da onça, enorme e ameaçadora, e a do índio frágil e etéreo:
Era uma luta inacreditável. O gato era uma bola de fúria, rosnados e unhadas, se curvando para frente enquanto se esforçava com cada movimento de suas quatro patas para afastar o objeto que espetava sua garganta e cortava sua respiração. Joaquim era visível apenas em lampejos de pele marrom. Volta e meia eu via as pernas dele se moverem em uma espécie de dança derviche, e seus pés descalços pareciam quase agarrar-se ao chão, enquanto ele lutava para manter o equilíbrio e continuar direcionando mais profundamente a lança na garganta do tigre. (: 177-178)
Sasha Siemel aprende a técnica da zagaia e apresenta-se como o primeiro homem branco a caçar onças desta forma. Ele é um símbolo da caçada de aventura praticada no Pantanal, a qual se sobrepõe à imagem utilitarista da eliminação dos animais nocivos à criação de gado. O caçador admira o tigre como um inimigo honrado e enfrenta-o extrapolando o código da nobreza esportiva e colocando em risco a própria vida: “Você vai ver que o tigre não responde à lógica humana, e não entende o significado de piedade. E o tigre é um dos inimigos mais honrados que você irá encontrar” (:16).
Ao mesmo tempo, apresenta em segundo plano o sacrifício do animal como algo necessário, um serviço para a comunidade: “Eu expliquei (…) que também não gostava de matar animais; e que minha caçada era para abater um animal assassino, do mesmo modo que um policial seria capaz de matar um assassino humano”(: 274). Neste outro trecho o julgamento é moral:“O puma era um destruidor de gado, e um dos raros animais da selva que matam unicamente por matar. (…) Eles [pumas] são covardes”. (:276). Os termos usados para descrever os animais – “assassino”, “covarde”, – contrastam com a nobreza da fera enfrentada pelo zagaieiro. A ambigüidade entre o animal nocivo e o adversário de valor atravessa toda a narrativa.