No rastro da onça pantaneira

Oct 09

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Oct 03

Onça de coleira, onça científica

O primeiro estudo científico da onça-pintada em ambiente selvagem com o uso da telemetria foi realizado no Pantanal. O projeto teve início no final da década de 1970, e foi coordenado pelo naturalista norte-americano George Schaller, da New York Zoological Society. Do ponto de vista científico, a onça se torna uma unidade produtora de dados a partir do momento em que recebe a coleira equipada com o rádio transmissor. Vagando pelos campos em busca de caça, as onças que usam essas coleiras produzem inscrições, coordenadas que vão se acumulando e são processadas em mapas. Os modelos mais modernos de transmissores são equipados com sistemas GPS, programados para armazenar dados de localização em intervalos regulares via satélite.

A partir dos dados obtidos em campo, os estudos ecológicos trabalham com ferramentas quantitativas como o PHVA (Population habitats and viability analysis), que consiste na compilação uma série de dados diferentes em sistemas computacionais, na elaboração de mapas complexos e nas previsões de quadros futuros para uma determinada espécie em termos estatísticos.

Para a biologia da conservação, a onça é um agente ecológico em diferentes sentidos. Em primeiro lugar, ela desempenha um papel como predador no topo da cadeia alimentar, com impacto nas populações de outros animais e no equilíbrio dos ecossistemas. É apontada também como uma espécie carismática ou espécie bandeira para a conservação ambiental, assim como para o ecoturismo na região do Pantanal: Um animal que mobiliza projetos de preservação e que atrai visitantes para a região. Um terceiro sentido provém da ecologia das paisagens: Laury Cullen (link abaixo) designa a onça-pintada como um detetive ecológico, isto é, um animal cuja presença é um indicador de biodiversidade. Neste caso, a descrição e o mapeamento das rotas usadas pela onça e sua permanência em fragmentos florestais podem indicar áreas que devem ser conservadas ou que funcionam como corredores de vida silvestre.

Referências:

http://www.ipe.org.br/pontal/detetives-ecologicos

SCHALLER, George B. 2007. A naturalist and other beasts: tales from a life in the field. San Francisco: Sierra Club Books.

Sep 13

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Sep 09

As armadilhas fotográficas foram desenvolvidas nos EUA para o manejo de animais de caça e adaptadas pela biologia da conservação às pesquisas com mamíferos selvagens. Foram aplicadas no estudo de tigres na Índia por Karanth e Nichols (1998), associadas a modelos de captura e recaptura, e posteriormente usadas em estudos com a onça-pintada (Silver 2005; Da Silva 2011). O padrão gráfico das listras e pintas dessas espécies (a malha da onça, como dizem os pantaneiros) é como uma impressão digital dos animais, que permite aos pesquisadores identificá-los individualmente.
Armadilhas fotográficas podem ser usadas para determinar a distribuição (presença ou ausência) ou para estimar a abundância de uma espécie em determinada região. O equipamento é composto por sensores de movimento e câmeras automáticas comuns protegidas por caixas de plástico resistente (o uso de câmeras digitais só se difundiu no final da década de 2000, depois que a indústria resolveu a questão do delay para tornar a armadilha eficiente). Em estudo realizado no Pantanal, Soisalo & Cavalcanti (2006) compararam os resultados obtidos com coleiras GPS aos resultados obtidos com armadilhas fotográficas, questionando protocolos estabelecidos para estas a avaliação de abundância da onça-pintada a partir dessas últimas.
A armadilha da foto é da marca norte-americana Stealph Cam, usada pelo Projeto Onça Pantaneira em 2008 (ver post abaixo sobre o assunto)
 
Referências:
Da Silva, M. X. (2011). “Armadilhas Fotográficas”. Site Fotografia Científica. Disponível em http://www.fotocientifica.com/2011/08/fotografia-cientifica.html. Acesso em 12/09/2011. 
Karanth, K.U. e Nichols, J.D. (1998) “Estimation of tiger densities in India using photographic captures and recaptures”. Ecology 79(8), 2852–2862. 
Silver, S. C. (2005) Estimativa de Abundância de Onças-Pintadas Através do Uso de Armadilhas Fotográficas. Wildlife Conservation Society, NY.
 
Soisalo, M. K.; Cavalcanti, S. M. C. 2006. “Estimating the density of a jaguar population in the Brazilian Pantanal sing camera-traps and capture-recapture sampling in combination with GPS radio-telemetry”. Biological Conservation, 29 (4): 487-496.

As armadilhas fotográficas foram desenvolvidas nos EUA para o manejo de animais de caça e adaptadas pela biologia da conservação às pesquisas com mamíferos selvagens. Foram aplicadas no estudo de tigres na Índia por Karanth e Nichols (1998), associadas a modelos de captura e recaptura, e posteriormente usadas em estudos com a onça-pintada (Silver 2005; Da Silva 2011). O padrão gráfico das listras e pintas dessas espécies (a malha da onça, como dizem os pantaneiros) é como uma impressão digital dos animais, que permite aos pesquisadores identificá-los individualmente.

Armadilhas fotográficas podem ser usadas para determinar a distribuição (presença ou ausência) ou para estimar a abundância de uma espécie em determinada região. O equipamento é composto por sensores de movimento e câmeras automáticas comuns protegidas por caixas de plástico resistente (o uso de câmeras digitais só se difundiu no final da década de 2000, depois que a indústria resolveu a questão do delay para tornar a armadilha eficiente). Em estudo realizado no Pantanal, Soisalo & Cavalcanti (2006) compararam os resultados obtidos com coleiras GPS aos resultados obtidos com armadilhas fotográficas, questionando protocolos estabelecidos para estas a avaliação de abundância da onça-pintada a partir dessas últimas.

A armadilha da foto é da marca norte-americana Stealph Cam, usada pelo Projeto Onça Pantaneira em 2008 (ver post abaixo sobre o assunto)

 

Referências:

Da Silva, M. X. (2011). “Armadilhas Fotográficas”. Site Fotografia Científica. Disponível em http://www.fotocientifica.com/2011/08/fotografia-cientifica.html. Acesso em 12/09/2011.

Karanth, K.U. e Nichols, J.D. (1998) “Estimation of tiger densities in India using photographic captures and recaptures”. Ecology 79(8), 2852–2862. 

Silver, S. C. (2005) Estimativa de Abundância de Onças-Pintadas Através do Uso de Armadilhas Fotográficas. Wildlife Conservation Society, NY.

 

Soisalo, M. K.; Cavalcanti, S. M. C. 2006. “Estimating the density of a jaguar population in the Brazilian Pantanal sing camera-traps and capture-recapture sampling in combination with GPS radio-telemetry”. Biological Conservation, 29 (4): 487-496.

Aug 19

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Jul 28

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Jul 16

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Jul 11

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Jul 08

O livro Tigrero! foi publicado em 1952 pela editora Ace Books, de Nova York. (A edição acima é de 1953). Na capa da edição de bolso, o gênero é descrito como “true adventure stories” e a ilustração remete ao faroeste e à cultura popular norte-americana. No livro, o caçador lituano Sasha Siemel narra sua busca por Joaquim Guató, um velho índio do Pantanal que enfrentava as onças-pintadas armado apenas com a zagaia, uma espécie de lança. A figura do zagaieiro é definida a partir de um contraste entre a imagem do índio solitário corrompido pela bebida e a imagem do perfeito caçador, dotado de “qualidades e instintos quase sobre humanos”. (1953: 16)
A luta entre o índio e a onça é apresentada por Siemel como um conflito “[d]o homem contra a natureza nos mais primitivos termos”, a essência da caçada.  O embate é narrado nos mínimos detalhes, em contrastes sucessivos entre a figura da onça, enorme e ameaçadora, e a do índio frágil e etéreo:
Era uma luta inacreditável. O gato era uma bola de fúria, rosnados e unhadas, se curvando para frente enquanto se esforçava com cada movimento de suas quatro patas para afastar o objeto que espetava sua garganta e cortava sua respiração. Joaquim era visível apenas em lampejos de pele marrom. Volta e meia eu via as pernas dele se moverem em uma espécie de dança derviche, e seus pés descalços pareciam quase agarrar-se ao chão, enquanto ele lutava para manter o equilíbrio e continuar direcionando mais profundamente a lança na garganta do tigre. (: 177-178)
Sasha Siemel aprende a técnica da zagaia e apresenta-se como o primeiro homem branco a caçar onças desta forma. Ele é um símbolo da caçada de aventura praticada no Pantanal, a qual se sobrepõe à imagem utilitarista da eliminação dos animais nocivos à criação de gado. O caçador admira o tigre como um inimigo honrado e enfrenta-o extrapolando o código da nobreza esportiva e colocando em risco a própria vida: “Você vai ver que o tigre não responde à lógica humana, e não entende o significado de piedade. E o tigre é um dos inimigos mais honrados que você irá encontrar” (:16). 
Ao mesmo tempo, apresenta em segundo plano o sacrifício do animal como algo necessário, um serviço para a comunidade: “Eu expliquei (…) que também não gostava de matar animais; e que minha caçada era para abater um animal assassino, do mesmo modo que um policial seria capaz de matar um assassino humano”(: 274). Neste outro trecho o julgamento é moral:“O puma era um destruidor de gado, e um dos raros animais da selva que matam unicamente por matar. (…) Eles [pumas] são covardes”. (:276). Os termos usados para descrever os animais – “assassino”, “covarde”, – contrastam com a nobreza da fera enfrentada pelo zagaieiro. A ambigüidade entre o animal nocivo e o adversário de valor atravessa toda a narrativa.

O livro Tigrero! foi publicado em 1952 pela editora Ace Books, de Nova York. (A edição acima é de 1953). Na capa da edição de bolso, o gênero é descrito como “true adventure stories” e a ilustração remete ao faroeste e à cultura popular norte-americana. No livro, o caçador lituano Sasha Siemel narra sua busca por Joaquim Guató, um velho índio do Pantanal que enfrentava as onças-pintadas armado apenas com a zagaia, uma espécie de lança. A figura do zagaieiro é definida a partir de um contraste entre a imagem do índio solitário corrompido pela bebida e a imagem do perfeito caçador, dotado de “qualidades e instintos quase sobre humanos”. (1953: 16)

A luta entre o índio e a onça é apresentada por Siemel como um conflito “[d]o homem contra a natureza nos mais primitivos termos”, a essência da caçada.  O embate é narrado nos mínimos detalhes, em contrastes sucessivos entre a figura da onça, enorme e ameaçadora, e a do índio frágil e etéreo:

Era uma luta inacreditável. O gato era uma bola de fúria, rosnados e unhadas, se curvando para frente enquanto se esforçava com cada movimento de suas quatro patas para afastar o objeto que espetava sua garganta e cortava sua respiração. Joaquim era visível apenas em lampejos de pele marrom. Volta e meia eu via as pernas dele se moverem em uma espécie de dança derviche, e seus pés descalços pareciam quase agarrar-se ao chão, enquanto ele lutava para manter o equilíbrio e continuar direcionando mais profundamente a lança na garganta do tigre. (: 177-178)

Sasha Siemel aprende a técnica da zagaia e apresenta-se como o primeiro homem branco a caçar onças desta forma. Ele é um símbolo da caçada de aventura praticada no Pantanal, a qual se sobrepõe à imagem utilitarista da eliminação dos animais nocivos à criação de gado. O caçador admira o tigre como um inimigo honrado e enfrenta-o extrapolando o código da nobreza esportiva e colocando em risco a própria vida: “Você vai ver que o tigre não responde à lógica humana, e não entende o significado de piedade. E o tigre é um dos inimigos mais honrados que você irá encontrar” (:16).

Ao mesmo tempo, apresenta em segundo plano o sacrifício do animal como algo necessário, um serviço para a comunidade: “Eu expliquei (…) que também não gostava de matar animais; e que minha caçada era para abater um animal assassino, do mesmo modo que um policial seria capaz de matar um assassino humano”(: 274). Neste outro trecho o julgamento é moral:“O puma era um destruidor de gado, e um dos raros animais da selva que matam unicamente por matar. (…) Eles [pumas] são covardes”. (:276). Os termos usados para descrever os animais – “assassino”, “covarde”, – contrastam com a nobreza da fera enfrentada pelo zagaieiro. A ambigüidade entre o animal nocivo e o adversário de valor atravessa toda a narrativa.