O livro Tigrero! foi publicado em 1952 pela editora Ace Books, de Nova York. (A edição acima é de 1953). Na capa da edição de bolso, o gênero é descrito como “true adventure stories” e a ilustração remete ao faroeste e à cultura popular norte-americana. No livro, o caçador lituano Sasha Siemel narra sua busca por Joaquim Guató, um velho índio do Pantanal que enfrentava as onças-pintadas armado apenas com a zagaia, uma espécie de lança. A figura do zagaieiro é definida a partir de um contraste entre a imagem do índio solitário corrompido pela bebida e a imagem do perfeito caçador, dotado de “qualidades e instintos quase sobre humanos”. (1953: 16)
A luta entre o índio e a onça é apresentada por Siemel como um conflito “[d]o homem contra a natureza nos mais primitivos termos”, a essência da caçada. O embate é narrado nos mínimos detalhes, em contrastes sucessivos entre a figura da onça, enorme e ameaçadora, e a do índio frágil e etéreo:
Era uma luta inacreditável. O gato era uma bola de fúria, rosnados e unhadas, se curvando para frente enquanto se esforçava com cada movimento de suas quatro patas para afastar o objeto que espetava sua garganta e cortava sua respiração. Joaquim era visível apenas em lampejos de pele marrom. Volta e meia eu via as pernas dele se moverem em uma espécie de dança derviche, e seus pés descalços pareciam quase agarrar-se ao chão, enquanto ele lutava para manter o equilíbrio e continuar direcionando mais profundamente a lança na garganta do tigre. (: 177-178)
Sasha Siemel aprende a técnica da zagaia e apresenta-se como o primeiro homem branco a caçar onças desta forma. Ele é um símbolo da caçada de aventura praticada no Pantanal, a qual se sobrepõe à imagem utilitarista da eliminação dos animais nocivos à criação de gado. O caçador admira o tigre como um inimigo honrado e enfrenta-o extrapolando o código da nobreza esportiva e colocando em risco a própria vida: “Você vai ver que o tigre não responde à lógica humana, e não entende o significado de piedade. E o tigre é um dos inimigos mais honrados que você irá encontrar” (:16).
Ao mesmo tempo, apresenta em segundo plano o sacrifício do animal como algo necessário, um serviço para a comunidade: “Eu expliquei (…) que também não gostava de matar animais; e que minha caçada era para abater um animal assassino, do mesmo modo que um policial seria capaz de matar um assassino humano”(: 274). Neste outro trecho o julgamento é moral:“O puma era um destruidor de gado, e um dos raros animais da selva que matam unicamente por matar. (…) Eles [pumas] são covardes”. (:276). Os termos usados para descrever os animais – “assassino”, “covarde”, – contrastam com a nobreza da fera enfrentada pelo zagaieiro. A ambigüidade entre o animal nocivo e o adversário de valor atravessa toda a narrativa.
Rastros e vestígios da onça, a set on Flickr.
BatidasPantanal - fauna nativa, a set on Flickr.
Mais animais pantaneiros[video]
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Esboço de uma classificação pantaneira das onças
Fiz um total de 65 entrevistas com moradores da região de estudo, associando questões abertas e um questionário fixo. Em relação à classificação das onças, os entrevistados distinguiram basicamente dois tipos de onça, chamadas na maior parte das vezes apenas de pintada e parda. O código cromático foi amplamente utilizado; um exemplo é esta descrição, feita pelo capataz de uma das fazendas: “Aqui tem a onça parda – aquela onça amarela – e a pintada. Tem uma parda que o pessoal fala suçuarana – uma parda maior – e a outra parda, menor, que fala parda, normal. E a pintada tem uma malha larga e uma malha miúda”. (E15.2008)
Os termos suçuarana, suçarana, soçarana e lombo preto foram empregados para qualidades ou como um sinônimo para parda. Outro critério adotado para diferenciar as onças foi o território usado por cada uma delas, que indicou um contraste entre locais mais selvagens e distantes (o campo) para a pintada e mais próximos das casas (a sede) para a parda. Além disso, a parda é conhecida por apreciar o campo aberto – o limpo –, que é igualmente apreciado pelos vaqueiros. A pintada, por sua vez, é reputada de preferir o sujo – o mato fechado. Além da evidente associação estética, o sujo também designa a impenetrabilidade de certos matos, como os pirizeiros, caraguatazeiros e outras vegetações nas quais as onças gostam de se esconder, e onde os caçadores não conseguem avançar.
Ilustrações:
Onça-pintada -Fiona Reid em: Eisemberg, John; Redford, Kent 1999. Mammals of the Neotropics vol.3. University of Chicago Press
Onça-parda - François Feer em: Emmons, Louise 1990. Neotropic Rainforest Mammals. University of Chicago Press
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O capataz de um retiro da Fazenda San Francisco, em Miranda, descreve o ataque de uma onça-pintada:
Ali, o boi estava provavelmente pastando, ela pulou nas costas do boi, mordeu no cupim. Aí com a mão ela fisgou o nariz do boi e mordeu na nuca do boi. Depois que ela morder na nuca do boi, aí já era. O boi já não tem mais reação nenhuma. Porque ali, enquanto o boi estiver se batendo, ela está apertando. (2008: Entrevista)
O retireiro tomava conta de um rebanho de mil e duzentas cabeças de gado, e aquele era o primeiro caso de predação na área da fazenda naquele ano de 2008. O crânio do animal foi coletado pelo Projeto Gadonça, dedicado ao estudo da interação entre a onça e o rebanho doméstico. Depois de limpo e preparado, foi anexado a uma extensa coleção de amostras que incluía ossadas de cervos, catetos, queixadas, capivaras, jacarés, antas, entre outros. A amostra exibe a perfuração típica da mordida da onça-pintada, na base da nuca do bezerro (foto). Este tipo de mordida é descrito por George Shaller (2007), autor do primeiro estudo de campo sobre a espécie no Pantanal, no final da década de 1970, como elemento chave para identificação do ataque:
Como de costume, o felino tinha matado a capivara com uma mordida na base do crânio. O jaguar traz a cabeça dentro de sua boca e, com os caninos opostos, perfura os ossos até o cérebro. Esta técnica é notável não só pela precisão com que os caninos perfuram o crânio, sobre ou perto das orelhas, mas também pela a força necessária para penetrar meia polegada de osso. Jaguares podem matar até vacas por quebrando seus crânios, utilizando uma força primitiva estranha mesmo aos leões e tigres, que normalmente matam grandes presas mais facilmente por estrangulamento [1]. (2007: 68)
SCHALLER, George B. 2007. A naturalist and other beasts: tales from a life in the field. San Francisco: Sierra Club Books.
Ver link:
http://en.wikipedia.org/wiki/Jaguar#Hunting_and_diet
[1] Trad. Minha: As usual, the cat had killed the capybara with a neat bite into the skull. The jaguar takes the head into its mouth and, with opposing canines, punctures the bone to the brain. This technique is noteworthy not only for the precision with which the canines pierce the skull on or near the ears but also for the strength needed to penetrate half an inch of bone. Jaguars may even kill cows by crunching open their skulls, using a primitive force alien to lions and tigers, which usually dispatch large prey more fastidiously by strangulation.
(Source: teses2.ufrj.br)