No Pantanal, os rebanhos são contados em milhares de cabeças, assim como os hectares, sendo que existem muitas diferenças entre o gado produzido para fora e aquele que é abatido dentro das fazendas da região. A produção em grande escala, voltada para o consumo externo, contrasta com a pequena escala da produção que abastece as pequenas comunidades locais. As vacas abatidas para consumo interno são aquelas que não produzem mais bezerros (as chamadas matulas), e, enquanto as novilhas ficam na fazenda para procriar, os garrotes são enviados para o engorde e vendidos para abatedouros e açougues nas grandes cidades do Mato Grosso do Sul.
O gado de corte, que é o produto da fazenda, é tratado de uma forma completamente diferente de outros tipos de gado, como as vacas leiteiras ou os bois sinuelos (que acompanham os vaqueiros para reunir o rebanho). Enquanto nestes dois casos os animais recebem nomes próprios, o gado de corte é designado por números. O manejo intensivo dentro do mangueiro, os episódios de vacinação e contagem dos animais, são aspectos da relação produtiva do pantaneiro com o gado, momento nos quais o boi é reificado, tratado como objeto, como rebanho indiferenciado. A lida com os animais no campo, por outro lado, é atravessada pela diferenciação, pelos indivíduos excepcionais, brabos, que varam cerca, escapam do rebanho, pelos cavalos difíceis de domar, pelas reses reivindicadas pelas onças e pelas cobras.
De acordo com autores como Campos Filho (2002) e Mazza (1994), a pecuária tradicional pantaneira tende a aumentar a biodiversidade, na medida em que o gado se alimenta de pastagens nativas e mantém o campo aberto, beneficiando outras espécies da fauna regional. A ação do gado sobre o ambiente pantaneiro, além disso, mantém a paisagem tal qual ela é conhecida e valorizada pelos moradores locais; o gado limpa o campo e abre as trilhas por onde os vaqueiros circulam. As tradições locais, no entanto, se encontram ameaçadas por um processo de modernização e implementação de práticas homogeneizantes como o plantio da braquiária, capim exótico que aumenta a produtividade e substitui o capim nativo (Mazza 1994). Num movimento similar, o gado branco (zebuíno de origem indiana da raça Nelore) é apontado um invasor que toma o lugar do gado pantaneiro, sendo que a etno-espécie Tucura, de origem ibérica, encontra-se hoje seriamente ameaçada de extinção (Campos Filho 2002).
O gado branco surge, nesse sentido, como índice de processos que em toda parte substituem os antigos costumes e descaracterizam o ambiente, tornando-o homogêneo. O gado pantaneiro, por outro lado, revela agenciamentos heterogêneos: o boi sinuelo, o gado bagual (selvagem), o visonho (que nunca viu gente), são categorias que fazem parte da tradição pantaneira. O gado branco remete à idéia do animal como recurso, matéria-prima para a empresa humana, enquanto o gado pantaneiro revela outros agenciamentos, aponta para um jogo complexo entre organismos e ambientes. O contraste evidencia uma distinção entre sistemas complexos e sistemas lineares de comportamento previsível e determinista.
Referências:
CAMPOS FILHO, Luiz Vicente da Silva. 2002. Tradição e ruptura. Cultura e Ambiente Pantaneiros. Cuiabá: Entrelinhas. MAZZA, Maria Cristina Medeiros; MAZZA, Carlos Alberto da Silva; SERENO, José Robson Bezerra; SANTOS, Sandra Aparecida; PELLEGRIN, Aiesca Oliveira. 1994. Etnobiologia e conservação do bovino pantaneiro. Corumbá: CPAP/ EMBRAPA.