Friday, July 8, 2011
O livro Tigrero! foi publicado em 1952 pela editora Ace Books, de Nova York. (A edição acima é de 1953). Na capa da edição de bolso, o gênero é descrito como “true adventure stories” e a ilustração remete ao faroeste e à cultura popular norte-americana. No livro, o caçador lituano Sasha Siemel narra sua busca por Joaquim Guató, um velho índio do Pantanal que enfrentava as onças-pintadas armado apenas com a zagaia, uma espécie de lança. A figura do zagaieiro é definida a partir de um contraste entre a imagem do índio solitário corrompido pela bebida e a imagem do perfeito caçador, dotado de “qualidades e instintos quase sobre humanos”. (1953: 16)
A luta entre o índio e a onça é apresentada por Siemel como um conflito “[d]o homem contra a natureza nos mais primitivos termos”, a essência da caçada.  O embate é narrado nos mínimos detalhes, em contrastes sucessivos entre a figura da onça, enorme e ameaçadora, e a do índio frágil e etéreo:
Era uma luta inacreditável. O gato era uma bola de fúria, rosnados e unhadas, se curvando para frente enquanto se esforçava com cada movimento de suas quatro patas para afastar o objeto que espetava sua garganta e cortava sua respiração. Joaquim era visível apenas em lampejos de pele marrom. Volta e meia eu via as pernas dele se moverem em uma espécie de dança derviche, e seus pés descalços pareciam quase agarrar-se ao chão, enquanto ele lutava para manter o equilíbrio e continuar direcionando mais profundamente a lança na garganta do tigre. (: 177-178)
Sasha Siemel aprende a técnica da zagaia e apresenta-se como o primeiro homem branco a caçar onças desta forma. Ele é um símbolo da caçada de aventura praticada no Pantanal, a qual se sobrepõe à imagem utilitarista da eliminação dos animais nocivos à criação de gado. O caçador admira o tigre como um inimigo honrado e enfrenta-o extrapolando o código da nobreza esportiva e colocando em risco a própria vida: “Você vai ver que o tigre não responde à lógica humana, e não entende o significado de piedade. E o tigre é um dos inimigos mais honrados que você irá encontrar” (:16). 
Ao mesmo tempo, apresenta em segundo plano o sacrifício do animal como algo necessário, um serviço para a comunidade: “Eu expliquei (…) que também não gostava de matar animais; e que minha caçada era para abater um animal assassino, do mesmo modo que um policial seria capaz de matar um assassino humano”(: 274). Neste outro trecho o julgamento é moral:“O puma era um destruidor de gado, e um dos raros animais da selva que matam unicamente por matar. (…) Eles [pumas] são covardes”. (:276). Os termos usados para descrever os animais – “assassino”, “covarde”, – contrastam com a nobreza da fera enfrentada pelo zagaieiro. A ambigüidade entre o animal nocivo e o adversário de valor atravessa toda a narrativa.

O livro Tigrero! foi publicado em 1952 pela editora Ace Books, de Nova York. (A edição acima é de 1953). Na capa da edição de bolso, o gênero é descrito como “true adventure stories” e a ilustração remete ao faroeste e à cultura popular norte-americana. No livro, o caçador lituano Sasha Siemel narra sua busca por Joaquim Guató, um velho índio do Pantanal que enfrentava as onças-pintadas armado apenas com a zagaia, uma espécie de lança. A figura do zagaieiro é definida a partir de um contraste entre a imagem do índio solitário corrompido pela bebida e a imagem do perfeito caçador, dotado de “qualidades e instintos quase sobre humanos”. (1953: 16)

A luta entre o índio e a onça é apresentada por Siemel como um conflito “[d]o homem contra a natureza nos mais primitivos termos”, a essência da caçada.  O embate é narrado nos mínimos detalhes, em contrastes sucessivos entre a figura da onça, enorme e ameaçadora, e a do índio frágil e etéreo:

Era uma luta inacreditável. O gato era uma bola de fúria, rosnados e unhadas, se curvando para frente enquanto se esforçava com cada movimento de suas quatro patas para afastar o objeto que espetava sua garganta e cortava sua respiração. Joaquim era visível apenas em lampejos de pele marrom. Volta e meia eu via as pernas dele se moverem em uma espécie de dança derviche, e seus pés descalços pareciam quase agarrar-se ao chão, enquanto ele lutava para manter o equilíbrio e continuar direcionando mais profundamente a lança na garganta do tigre. (: 177-178)

Sasha Siemel aprende a técnica da zagaia e apresenta-se como o primeiro homem branco a caçar onças desta forma. Ele é um símbolo da caçada de aventura praticada no Pantanal, a qual se sobrepõe à imagem utilitarista da eliminação dos animais nocivos à criação de gado. O caçador admira o tigre como um inimigo honrado e enfrenta-o extrapolando o código da nobreza esportiva e colocando em risco a própria vida: “Você vai ver que o tigre não responde à lógica humana, e não entende o significado de piedade. E o tigre é um dos inimigos mais honrados que você irá encontrar” (:16).

Ao mesmo tempo, apresenta em segundo plano o sacrifício do animal como algo necessário, um serviço para a comunidade: “Eu expliquei (…) que também não gostava de matar animais; e que minha caçada era para abater um animal assassino, do mesmo modo que um policial seria capaz de matar um assassino humano”(: 274). Neste outro trecho o julgamento é moral:“O puma era um destruidor de gado, e um dos raros animais da selva que matam unicamente por matar. (…) Eles [pumas] são covardes”. (:276). Os termos usados para descrever os animais – “assassino”, “covarde”, – contrastam com a nobreza da fera enfrentada pelo zagaieiro. A ambigüidade entre o animal nocivo e o adversário de valor atravessa toda a narrativa.

Wednesday, June 15, 2011

Fazenda São Bento, Pantanal do Abobral, novembro de 2008. Os pesquisadores do Projeto Onça Pantaneira encontram restos de um bezerro abatido durante a noite por uma onça-pintada. A pesquisa é coordenada pelo biólogo Fernando Azevedo, do Instituto para Conservação dos Carnívoros Neotropicais, e investiga o comportamento e os hábitos alimentares da onça pantaneira. O foco principal é a interação entre os felinos e o gado, historicamente relacionada ao conflito local entre fazendeiros e predadores. Os dois integrantes da equipe de campo do projeto que aparecem nas fotos são o biólogo Henrique Conccone, paulista radicado no Pantanal, e o mateiro e guia de campo João Elias, antigo caçador que trabalha atualmente na preservação das onças.

Depois de encontrar a carcaça do bezerro, Henrique identifica as perfurações causadas pela mordida na base do crânio do animal, um sinal típico do ataque da onça-pintada. Ele anota em sua caderneta de campo as condições do terreno e as condições da carcaça, estimando o tempo decorrido desde o ataque; anota o número do brinco do bezerro; por fim, registra as coordenadas de localização através de um aparelho de GPS portátil. Em seguida, usa a antena de rádio, testando as freqüências referentes aos colares das dez onças monitoradas pelo projeto.

Enquanto isso, Seu João prepara uma armadilha fotográfica, amarrando-a em troncos a cerca de dois metros do bezerro, e a uma altura de 30 centímetros do chão, apontada para a carcaça. O equipamento é composto por uma caixa de plástico resistente e um modelo comum de câmera automática digital dotada de sensor de movimento, que foi programada para disparos consecutivos a cada dez segundos. Como somente uma parte das costelas do bezerro havia sido comida, a possibilidade de que o predador voltasse ao local era grande. Para aumentar as chances de identificação da onça, Seu João amarra as patas traseiras do animal a um cipó atravessado na horizontal, utilizando um cordão que trouxe no bolso.

Na manhã seguinte, voltamos ao local. O que restou do bezerro é praticamente só a ossada e o couro. As armadilhas fotográficas deixadas na tarde anterior foram disparadas, e mostram uma onça de coleira. De volta ao laboratório, Henrique conecta o equipamento ao computador e observa as imagens. O biólogo escolhe um detalhe do corpo da onça e aproxima, selecionando uma área perto do pescoço. Utilizando o mesmo programa de computador, ele visualiza fotos que tirou por ocasião da captura de das onças, alguns meses antes, e compara os detalhes.

O padrão das pintas produz uma espécie de impressão digital de cada indivíduo; assim, através das imagens, o pesquisador identifica o animal. Trata-se de um dos machos monitorados pelo projeto, apelidado pelos pesquisadores de Mirão, em homenagem ao pai do proprietário da fazenda. A coleira de monitoramento no pescoço do felino é da marca Televilt, de fabricação sueca, dotada de transmissor de rádio e equipamento GPS, o qual armazena sua localização em horas pré-determinadas. Através do equipamento, é possível mapear a área de vida da onça e localizar animais abatidos por ela com a finalidade de se estudar sua dieta.

O caso do bezerro seria registrado tanto pelo projeto científico, como um caso de predação de onça-pintada, quanto pela fazenda, como uma ocorrência de perda na produção daquele ano. O manejo do rebanho envolve a documentação das mortes e de suas causas. O bezerro foi abatido no final da estação seca, em novembro, e teria sido enviado para o engorde pouco tempo depois; no ano seguinte teria sido abatido em um frigorífico de Corumbá e a carne seria vendida no mercado local. O projeto, por sua vez, registra todos os animais encontrados mortos na fazenda, incluindo espécies silvestres e domésticas, sendo que o termo predação é utilizado especificamente para os ataques de onças ao rebanho.

Em dez meses de trabalho até aquela data, o projeto havia registrado 44 casos de gado abatido por onças (pintadas e pardas) na fazenda. Em relação ao rebanho total da propriedade, que nos meses de pico chega a cinco mil cabeças, a predação representou uma perda menor do que 1% (abaixo de outras causas, como picadas de cobra ou a ingestão de ervas tóxicas pelo gado). Um problema para os criadores de gado, assim como para os projetos de conservação das onças, é que elas selecionam, em sua dieta, os bezerros mais novos (Azevedo e Murray 2007). Isso repercute diretamente na produtividade da fazenda, o que em muitos casos, tanto historicamente quanto atualmente, representa uma justificativa mais do que suficiente para a eliminação dos animais. Alguns meses depois que voltei do trabalho de campo, Henrique me diria por email que aquela foto tinha sido o último vestígio de Mirão: “Depois disso, nunca mais apareceu. Ou a coleira estragou, ou ele mudou de área, ou foi morto”.

      

Para saber mais sobre o Projeto Onça Pantaneira

http://www.procarnivoros.org.br/2009/projeto1.asp?projeto=34

Referência:

AZEVEDO, Fernando Cesar Cascelli; MURRAY, Dennis L. 2007. “Evaluation of potencial factors predisposing livestock to predation by jaguars”, in: The journal of wild life management, 71 (7), pp. 2379-86

Sunday, June 12, 2011

Parda x Pintada

 

“A onça-parda surra a pintada”, afirma um morador antigo do Pantanal do Miranda, e acrescenta que “a parda protege a pessoa, acompanha no campo” (Ent. 03/2006). Declarações semelhantes aparecem em muitas outras entrevistas realizadas durante o trabalho de campo. Reproduzo abaixo algumas delas:

 

Elas não combinam muito não. Dá briga. Só que, a suçuarana, a pintada tem medo dela. Tem receio dela. Diz que ela é bem mais valente do que a pintada.

(…)

O povo antigo sempre falava – meus tios mesmo falavam – que a suçuarana, aonde ela estava, mesmo, que a pintada estivesse ali por perto, ela escorraçava com a pintada pra cuidar o homem. Ela cuida, ela escorraça com a pintada pra ficar cuidando a gente.

(…)

Onde é que tem onça parda, a pintada não para. Porque a parda bate nela. E a parda é menor do que a onça pintada, mais fininha, mas a pintada corre de onde tem a parda.

(…)

Diz que a parda é muito mais rápida, tem muito mais destreza. E não foi nem um e nem dois que eu ouvi falar. Eu conheci um bugre velho que cansou de falar: A parda bate na pintada.

 

O surpreendente nessas declarações é principalmente o contraste com o que dizem os próprios entrevistados, eles mesmos tendo apontado a pintada como bicho valente, forte, perigoso, que enfrenta gado grande, e a parda como covarde e mansa, que pega muito bezerro pequeno e carneiro.

Pioneiros no estudo científico da onça-pintada, Peter Crawshaw e Howard Quigley observam que:“É comumente dito no Pantanal, por pessoas familiarizadas com a fauna, que, em luta corporal, a parda derrota a pintada” (1984: 18). Vale lembrar, a esse respeito, que os autores estimam que o peso médio de uma onça-pintada, na região, seja aproximadamente o dobro do peso de uma onça-parda, e registram que as presas abatidas pela pintada são em média bem maiores do que aquelas das quais a parda se alimenta.

Coincidência ou não, no livro Jaguar, de Alan Rabnowitz (1986), uma afirmação semelhante é atribuída aos índios Maia, de Belize, nas florestas da América Central: “Talvez sua constituição física, indicando que o puma seja relativamente rápido e ágil, ajude a explicar por que o puma é muitas vezes o vencedor nas histórias indígenas de batalhas entre onças-pintadas e onças-pardas” (1986: 206; trad. minha).

Rabinowitz, no entanto, apenas menciona histórias indígenas, mas não parece inclinado a levá-las muito a sério. Crawshaw e Quigley (1984: Op. Cit), por outro lado, não pressupõe que os moradores do Pantanal estejam apenas descrevendo sua própria cultura ou usando uma metáfora, mas sim que eles estão falando do comportamento empírico das onças, observado em ambiente natural. Ao que dizem os pantaneiros, os autores contrapõem duas evidências de pardas aparentemente mortas por pintadas, encontradas durante seu trabalho de campo, porém observam que essas evidências não são conclusivas. 

(Desconheço novas informações a esse respeito, mas é bem possível que elas existam na literatura científica sobre o tema).

Nas minhas entrevistas, outras afirmações que aparecem são que a parda “cuida da gente”, “acompanha no campo” e “protege a pessoa” (da onça-pintada), o que também é significativo para uma análise das relações locais entre humanos e onças.

 

 

Referências:

CRAWSHAW, Peter G.; QUIGLEY, Howard B. 1984. “A ecologia do jaguar ou onça pintada (panthera onca palustris) no pantanal matogrossense”, in: Estudos bioecológicos do pantanal matogrossense – relatório final – parte I.  Brasília: Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal - IBDF.

RABINOWITZ, Allan 1986. Jaguar – One man’s struggle to establish the world’s first jaguar preserve. Washington: Island Press, 2000