trinta e um queixadas (by flipskind)
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Seu Felipe era o mais antigo funcionário da Fazenda San Francisco, e tive o privilégio de conhecê-lo em setembro de 2008. Durante dois dias consecutivos, visitei-o na cidade de Miranda, na pequena casa onde morava desde que havia se aposentado da fazenda. Gravei cerca de 100 minutos de entrevista. Filho de uma índia Terena e de um gaúcho do Rio Grande, a trajetória pessoal dele é impregnada pela história da região.
Seu Felipe participou diretamente da abertura da San Francisco, uma das propriedades resultantes do desmembramento da tradicional Fazenda Bodoquena. Em meados do século XX, a propriedade era um gigantesco empreendimento de gado, com mais de 400 mil ha que se estendiam desde Miranda até Corumbá. A Bodoquena teve origem na Fazenda Francesa, visitada por Levi-Strauss em 1935, em sua expedição ao encontro dos índios Cadiueu (Tristes Trópicos 1955).
Parda x Pintada
“A onça-parda surra a pintada”, afirma um morador antigo do Pantanal do Miranda, e acrescenta que “a parda protege a pessoa, acompanha no campo” (Ent. 03/2006). Declarações semelhantes aparecem em muitas outras entrevistas realizadas durante o trabalho de campo. Reproduzo abaixo algumas delas:
Elas não combinam muito não. Dá briga. Só que, a suçuarana, a pintada tem medo dela. Tem receio dela. Diz que ela é bem mais valente do que a pintada.
(…)
O povo antigo sempre falava – meus tios mesmo falavam – que a suçuarana, aonde ela estava, mesmo, que a pintada estivesse ali por perto, ela escorraçava com a pintada pra cuidar o homem. Ela cuida, ela escorraça com a pintada pra ficar cuidando a gente.
(…)
Onde é que tem onça parda, a pintada não para. Porque a parda bate nela. E a parda é menor do que a onça pintada, mais fininha, mas a pintada corre de onde tem a parda.
(…)
Diz que a parda é muito mais rápida, tem muito mais destreza. E não foi nem um e nem dois que eu ouvi falar. Eu conheci um bugre velho que cansou de falar: A parda bate na pintada.
O surpreendente nessas declarações é principalmente o contraste com o que dizem os próprios entrevistados, eles mesmos tendo apontado a pintada como bicho valente, forte, perigoso, que enfrenta gado grande, e a parda como covarde e mansa, que pega muito bezerro pequeno e carneiro.
Pioneiros no estudo científico da onça-pintada, Peter Crawshaw e Howard Quigley observam que:“É comumente dito no Pantanal, por pessoas familiarizadas com a fauna, que, em luta corporal, a parda derrota a pintada” (1984: 18). Vale lembrar, a esse respeito, que os autores estimam que o peso médio de uma onça-pintada, na região, seja aproximadamente o dobro do peso de uma onça-parda, e registram que as presas abatidas pela pintada são em média bem maiores do que aquelas das quais a parda se alimenta.
Coincidência ou não, no livro Jaguar, de Alan Rabnowitz (1986), uma afirmação semelhante é atribuída aos índios Maia, de Belize, nas florestas da América Central: “Talvez sua constituição física, indicando que o puma seja relativamente rápido e ágil, ajude a explicar por que o puma é muitas vezes o vencedor nas histórias indígenas de batalhas entre onças-pintadas e onças-pardas” (1986: 206; trad. minha).
Rabinowitz, no entanto, apenas menciona histórias indígenas, mas não parece inclinado a levá-las muito a sério. Crawshaw e Quigley (1984: Op. Cit), por outro lado, não pressupõe que os moradores do Pantanal estejam apenas descrevendo sua própria cultura ou usando uma metáfora, mas sim que eles estão falando do comportamento empírico das onças, observado em ambiente natural. Ao que dizem os pantaneiros, os autores contrapõem duas evidências de pardas aparentemente mortas por pintadas, encontradas durante seu trabalho de campo, porém observam que essas evidências não são conclusivas.
(Desconheço novas informações a esse respeito, mas é bem possível que elas existam na literatura científica sobre o tema).
Nas minhas entrevistas, outras afirmações que aparecem são que a parda “cuida da gente”, “acompanha no campo” e “protege a pessoa” (da onça-pintada), o que também é significativo para uma análise das relações locais entre humanos e onças.
Referências:
CRAWSHAW, Peter G.; QUIGLEY, Howard B. 1984. “A ecologia do jaguar ou onça pintada (panthera onca palustris) no pantanal matogrossense”, in: Estudos bioecológicos do pantanal matogrossense – relatório final – parte I. Brasília: Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal - IBDF.
RABINOWITZ, Allan 1986. Jaguar – One man’s struggle to establish the world’s first jaguar preserve. Washington: Island Press, 2000